A música, do grego musiké téchne (a arte das musas), é constituída por sons e pela ausência destes. No entanto, uma definição de música torna-se complicada, pois esta encontra-se em constante mudança. O mais simples, talvez, será dizer que a música organiza os sons e os silêncios no tempo. Mas já aqui, com esta definição, encontramos restrições: o que significa organizar os sons e os silêncios no tempo? Existe apenas uma forma de organizar os sons e os silêncios no tempo? À partida podemos dizer que existem várias maneiras de os organizar, sendo que todas elas são aceitáveis.
Um dos pontos de partida para este trabalho é exactamente tentar definir, ou limitar as hipóteses de uma definição do que é a música. Será que toda a combinação de sons e silêncios pode ser classificada como música?
A música não tem a capacidade de entreter o ser humano, o seu entendimento, a sua razão, por meio de conceitos como o faz a poesia, por exemplo, ou tão pouco o olho humano através de representações visuais, como acontece nas artes plásticas. Sendo um tipo de arte que não é visual ou palpável, a única forma que a música tem de chegar ao homem é através da audição. Através da audição a música chega ao homem e actua sobre os seus sentimentos, como o fariam as artes plásticas através do olho, ou outras artes de outras diversas formas.
Normalmente, considera-se como papel maioritário da música o suscitar sentimentos, ou “sentimentos belos”. Em segundo lugar apontam-se os sentimentos como parte constituinte da música. No entanto podemos perfeitamente perceber que o conteúdo da música não são, nem poderiam ser, os sentimentos.
O conteúdo da música são os sons, que por sua vez são compostos por vibrações. As vibrações constituem as notas musicais, o que nos leva a poder afirmar que sempre que existe uma vibração estamos perante uma nota musical. Desta forma, os únicos constituintes da música são sons, as notas musicais, e nunca os sentimentos. Os sentimentos pertencem ao campo afectivo do ser humano. Podemos, no entanto, considerar que os sentimentos podem ser gerados no ser humano através da música. No entanto, e como veremos mais adiante, isto também não se verifica, pelo menos na sua totalidade.
Mas, devemos em primeiro lugar distinguir as sensações dos sentimentos. Uma sensação é uma percepção de uma determinada qualidade sensível, isto é, de um som ou de uma cor, por exemplo. O sentimento é o tornar-se consciente de um impulso estimulante, ou de um impedimento, do nosso estado anímico. Quando percepcionamos o cheiro ou o sabor de alguma coisa, a sua forma, cor ou som, tomamos consciência destes qualidades; quando a melancolia ou a esperança, a alegria ou a saudade, alteram o nosso estado anímico habitual elevando-nos acima deste (felicidade) ou fazendo-nos pairar abaixo do mesmo (trizteza), experienciamos sentimentos.
O belo afecta em primeiro lugar os nossos sentidos. Este tipo de percurso não é estranho a esta característica estética tão particular, pelo contrário, é partilhado com todo o fenómeno em geral. A sensação é o começo e a condição principal para podermos apreciar algo estéticamente, constitui justamente a base do sentimento, que pressupõe sempre uma relação com algo e, muitas vezes, as mais complicadas relações. A provocação de sensações não necessita da arte. Um único som poderá provocar uma sensação. A música deve despertar os nossos sentimentos e, alternadamente, encher-nos de devoção e amor, de júbilo e de melancolia.
Qualquer tipo de arte causa um tipo de sentimento peculiar, no entanto os músicos não se encontram enredados no erro de pretender reivindicar igualmente todas as artes para os sentimentos. Pelo contrário, vêem nisso algo de específico da arte dos sons. A força e a tendência para actuar nos sentimentos do ouvinte seria justamente o que caracteriza a música em relação às restantes artes. Toda a verdadeira obra de arte se estabelecerá numa qualquer relação com o nosso sentir, mas nenhuma numa relação de exclusividade apenas com os nossos sentimentos. Assim, nada de decisivo se pode afirmar acerca da relação da música, no que toca ao seu princípio estético, quando esta é caracterizada mediante o seu efeito nos sentimentos. A mesma música, em diferentes nacionalidades, em diferentes temperamentos ou idades e circunstâncias, ou ainda na igualdade de todas as condições mas em indivíduos diferentes, terá efeitos muito diversificados. Basta-nos pensar num público europeu e veremos claramente que, perante uma obra de música Clássica, uma metade do público sentirá despertar as mais fortes e elevadas sensações perante a obra, enquanto que a metade oposta apenas a consideraria enfadonha, música intelectualista e com ausência de sentimentos. A correlação de obras musicais com certas disposições anímicas não constitui sempre e em toda a parte um imperativo absoluto. A própria maturação gnoseológica altera a forma como um mesmo indivíduo recebe uma determinada obra de arte. Cada época e cada civilização traz consigo um ouvir diferente e um sentir diverso.. A música permanece a mesma, sendo que a única coisa que se altera é o público e, consequentemente, o seu efeito de acordo com pontos de vista diferentes. Além disto, basta um simples título ou uma pequena indicação para que o nosso sentir se deixe facilmente enganar. O efeito da música sobre os sentimentos não tem, portanto, nem a necessidade nem a exclusividade ou a constância necessária que um fenómeno deveria apresentar para conseguir servir de fundamento a um princípio estético. É certo que a música pode suscitar em alto grau determinados sentimentos, mas da mesma forma podem também outros tipos de acontecimentos suscitar esses mesmos sentimentos. Interessa, no entanto, o modo como a música pode suscitar afectos de forma semelhante.
1 comentário:
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