Pesquisa

15 março 2010

Da Natureza Humana

Uma abordagem ao filme de Stanley Kubrick, A larânja mecânica

Uma incursão pelo mundo do cinema com um olhar filosófico.
Uma análise comparativa entre cinema e filosofia.
A larânja mecânica e a problemática do bem e do mal.



A laranja mecânica, ou, mais correctamente, Uma laranja mecânica (do original inglês A Clockwork Orange (“A” trata-se de um artigo indefinido e, como tal, refere-se a uma laranja indefinida, que poderá ser qualquer uma)), é uma obra controversa. Desde o seu primeiro aparecimento, aquando da publicação do livro em 1962, passando pela adaptação ao cinema, por Stanley Kubrick em 1971, todo o imaginário (no entanto muito realista) criado por Anthony Burgess gerou algumas opiniões menos favoráveis e algumas críticas um tanto redutoras. Este tipo de atitude tem origem, em grande parte, na temática da obra, mas por outro lado o Nadsat (uma língua composta, uma espécie de calão, utilizada pelos jovens da história e que tem a sua origem numa mistura entre inglês e russo) também forneceu elementos suficientes para que alguns críticos relegassem a obra para um plano secundário de mero entretenimento, sem qualquer tipo de relevância no que toca à moralidade. Começando por esclarecer a vertente linguística adoptada, Anthony Burgess escreve, num artigo de 1986, que “os jornais populares [ingleses] acharam que o calão anglo-russo era uma piadinha parva que não funcionava”. O autor esclarece: “Ocorreu-me que poderia ser uma boa ideia criar uma espécie de jovem hooligan que cavalgasse a cortina de ferro e falasse uma gíria composta pelas duas línguas políticas mais poderosas do mundo – o anglo-americano e o russo. A ironia residiria no facto de o herói-narrador ser totalmente apolítico.”. Neste ponto conseguimos perceber que o autor não o fez por mero divertimento mas sim com uma intenção declaradamente irónica e provocadora. Nada viria a ser deixado ao acaso na obra. Outro ponto que poderá ter gerado alguma discórdia foi o facto de o leitor poder deparar-se com algumas dificuldades numa primeira aproximação. No entanto, e inserido num contexto específico, o nadsat torna-se rapidamente intuitivo e nunca chega a comprometer seriamente a compreensão da obra. Mesmo assim, edições posteriores do livro foram lançadas com um pequeno glossário.
Originadora de maior controvérsia, no entanto, é certamente a temática da obra: a moralidade, com origem naquilo que o autor denomina ultraviolência. Ultraviolência é o termo utilizado pelo próprio narrador para descrever as práticas violentas da sua geração: uma violência que se serve de forma excessiva e sem qualquer tipo de remorso. Alex, o herói-narrador, é um jovem amante da vida e que gosta de se divertir com o seu grupo de amigos, sobretudo através de actos de ultraviolência. Através da narração de Alex, o leitor e o espectador passam a fazer parte do grupo do herói, ficando assim submersos no mundo da ultraviolência. Toda a obra é dominada pelo mundo da violência adolescente. Não seria a narração muito diferente de tantas outras se se ficasse por aqui. No entanto, a conduta excessivamente violenta de Alex, e uma traição por parte do seu grupo, leva-o à prisão. Lá, acaba por ser encaminhado para um processo de reabilitação coordenado pelo estado britânico e que tem por objectivo curar a “doença” que é a violência juvenil. De novo, citando Burgess “O homem define-se pela sua capacidade de escolher rumos de acção moral”, e como tal, “Se escolhe o bem, tem de ter a possibilidade de escolher em vez dele o mal”. “O mal é uma necessidade teológica”, pois sem este o bem não faria sentido, nem existiria sequer. A necessidade de enfatizar o papel do bem, e de nos fazer crer que o único caminho possível de seguir é o do bem, remete-nos para o seu oposto, o mal. Neste ponto será conveniente regressar à filosofia pré-socrática, mais propriamente ao pensamento de Heraclito. Segundo o filósofo grego, tudo na vida são opostos, e de acordo com a sua máxima, panta rhei, “tudo flui”. Ou seja, de acordo com Heraclito, o bem é o oposto do mal, o que significa que a existência do mal depende da existência do bem, e vice-versa. E da mesma forma, o bem flui a partir do mal, e o mal flui do bem. Os opostos geram-se reciprocamente e só podem existir com base um no outro. Sem a existência de dois opostos provavelmente teríamos dificuldades enormes em definir certos conceitos. ”Queria também dizer que é mais aceitável fazermos más acções do que sermos artificialmente condicionados para uma capacidade e capazes apenas de fazer o que é socialmente aceitável.”.
É neste ponto que A laranja mecânica nos remete para uma problemática moral, onde sobretudo o livre arbítrio é questionado, mas também a religião é posta em causa. Na contracapa de uma edição do livro publicada pelo jornal Diário de Notícias, podemos ler (e sobretudo destas questões partirá este trabalho): “Quais são os desígnios de Deus? Quererá Ele o Bem ou a escolha do Bem? Um homem que escolhe o Mal, será por acaso ou de certo modo, melhor do que um homem a quem impõem o Bem?”, ou ainda, numa outra parte, podemos ler “O que é que define um homem bom? Não será o homem que escolhe o mal de alguma forma melhor do que aquele que faz o bem porque não tem escolha?”.
Através de uma perspectiva pessoal baseada num misto entre o livro e a sua adaptação ao cinema, passando pela filosofia moral de Espinosa e por uma incursão na música e na sua relação com os sentimentos, o que se pretende com este trabalho é expor e discutir a problemática da moralidade na obra.
Interessa no entanto fazer referência a uma pequena diferença entre o livro e a obra adaptada ao cinema. O último capítulo do livro (Terceira Parte, Capítulo VII) encontra-se omisso na adaptação cinematográfica. Este facto contribui para uma interpretação diferente da obra, a qual será posteriormente explicada.








A temática da obra

§ Bem e mal

Como dito anteriormente na introdução, A laranja mecânica centra-se na temática da oposição entre bem e mal; uma temática de moralidade, portanto. Estes conceitos não subsistem por si só, isto é, existe, por detrás deles, todo um conjunto de leis sociais que faz com que tenham uma definição relativa. Ou seja, se pegarmos, para raciocinar de forma mais objectiva, nos conceitos de mesa ou cadeira, percebemos rapidamente que estes são objectivos. Independentemente da língua que utilizemos para tratá-los, mesa e cadeira são conceitos que representam sempre o mesmo objecto. Já no caso de bem e mal isso não acontece. A sua definição é relativa às normas adoptadas por cada sociedade em particular. Aqui podemos também pensar numa outra forma de definir bem e mal que é a perspectiva religiosa, também ela presente na história de Alex. Durante a sua passagem pela prisão, Alex dedica-se ao estudo das escrituras. Fá-lo, sobretudo para se mostrar arrependido pelo seu comportamento anterior, fá-lo como forma de redenção. Percebemos, no entanto, que a redenção de Alex não é sincera, é apenas um acto aparente, como podemos ver em alguns trechos representados do pensamento de Alex em que este se imagina como intérprete do papel de vilão. Aqui se deixa denotar também a ironia como crítica ao pensamento religioso, sobretudo por parte dos sacerdotes e pela forma como estes o tentam difundir. Será pertinente abordar aqui, de forma sucinta, a relação existente entre a religião e a moralidade. Os mandamentos religiosos apenas incitam os crentes a agir de acordo com aquilo que se pensa serem os mandamentos divinos, no entanto não são mais verdadeiros que quaisquer outras opções morais que se possam verificar. A moralidade baseia-se, sobretudo, no meio social em que vivemos e nas leis estabelecidas pelas sociedades. O que é para nós aceitável poderá não o ser noutra sociedade de cultura diferente. Ao contrário do que se poderia pensar à partida, não será a religião a salvar Alex.
A liberdade faz de nós responsáveis pelos nossos actos. Àquele que não é livre seria um erro atribuir-lhe as consequências das suas escolhas, pois simplesmente aquele que não é livre não poderá escolher. De acordo com Nietzsche, o padre cristão de Burgess aparece-nos como um homem fraco que tenta persuadir Alex a uma redenção que não é mais do que uma conversão a uma fraqueza onde, apesar de haver liberdade de escolha, esta mesma liberdade de escolha está condicionada pela vontade divina. O padre tenta banir toda a perversão de Alex e convertê-lo num bom cristão. No entanto, uma liberdade de escolha que bane os instintos que não estão de acordo com ela deixa de ser uma liberdade de escolha.
De facto, se existe uma privação de liberdade que nos impede de escolher anula-se o livre arbítrio. Desta forma não podemos julgar estas escolhas pois elas não contêm qualquer fundamento moral e poderiam ser realizadas por uma máquina (por uma laranja mecânica). Alex, ao longo do filme, sofre duas metamorfoses: numa primeira fase regride (porque a privação do livre arbítrio não pode significar uma evolução) de uma pessoa que escolhe o caminho do mal para uma pessoa que é obrigada a escolher o bem; após tentar o suicídio Alex consegue livrar-se do condicionamento que lhe havia sido imposto e definitivamente evolui (e isto apenas no último capítulo da obra escrita, ausente da obra cinematográfica) de alguém que não possui capacidade de escolha para alguém que escolhe o bem. Na verdade o tratamento nada fez a Alex. O único resultado foi uma privação do seu livre arbítrio, o que o tornou numa “laranja mecânica” incapaz de realizar qualquer tipo de acção considerada violenta. Este tipo de limitação acaba mesmo por deixá-lo em perigo de vida quando é atacado por um grupo de idosos sem-abrigo, ficando impossibilitado, devido ao mau estar que se apodera dele, de poder sequer defender-se.





§ Espinosa e o livre arbítrio


É na filosofia ética de Espinosa que podemos encontrar algum tipo de argumento para justificar, e de certa forma desculpar, Alex pelos seus comportamentos. Primeiro que tudo é necessário explicitar qual o significado de Deus para Espinosa. Deus, ou Natureza (pois ambos os conceitos se referem ao mesmo), é um ser de infinitos atributos. Ao mesmo tempo, Deus é a única substância da qual consiste o Universo, sendo que todas as substâncias menores são apenas modificações de Deus.
A possibilidade de escolha de Alex, o seu livre arbítrio, à luz da filosofia espinosista, é apenas uma ilusão. O herói nunca poderia ter escolhido outro tipo de comportamento pois, diz-nos o filósofo, que de facto o ser humano apenas supõe que é dotado de livre arbítrio. Na realidade os seres humanos presumem serem dotados de livre arbítrio pois apenas tomam consciência da sua vontade e não da verdadeira razão pela qual desejam e agem como acabam por fazê-lo. Alex não poderia escolher agir de *__*outra forma pois não tem plena consciência da razão que o leva a agir de determinada maneira, segue a sua vontade de praticar a violência. Isto acontece devido à necessidade da Natureza de que esse acontecimento se dê. Como um determinista que era, Espinosa acreditava que tudo acontecia porque era necessário, porque estava determinado, e só desta forma o mundo poderá seguir o seu rumo. Mesmo o comportamento humano estaria determinado. Para o filósofo, a nossa liberdade representava apenas a capacidade que temos de reconhecer que o nosso comportamento está determinado e também de perceber as razões pelas quais agimos de determinadas maneiras. Nesta perspectiva, a liberdade não seria a possibilidade de optar por um ou outro tipo de comportamento, aceitando-o ou negando-o, mas apenas a capacidade de aceitar um tipo de comportamento e de perceber quais as razões para que um comportamento aconteça de determinada forma e não de outra.
Ao termos uma maior capacidade de perceber os nossos comportamentos, poderemos formar juízos mais rigorosos acerca das nossas acções e também acerca dos nossos afectos e sentimentos. Tornamo-nos, desta forma, a causa adequada das nossas acções o que resulta numa maior actividade em detrimento da passividade. Assim tornamo-nos ao mesmo tempo mais livres e mais próximos de Deus (será importante aqui frisar que a concepção de Deus de Espinosa difere da concepção cristã).
Apesar de tudo, relembra Espinosa, que tudo deve acontecer como previamente determinado. Apesar do homem se tornar mais consciente e mais livre este continua a não ter qualquer tipo de capacidade de escolha. A sua capacidade remete-se apenas a uma melhor compreensão do mundo que o rodeia e da forma como e porquê certas coisas acontecem de determinada maneira.
Voltando à obra, e mais especificamente a Alex, sabemos que, de acordo com esta teoria, tudo estaria predeterminado. Os acontecimentos nunca poderiam ter sido de outra forma, apenas a consciência que o autor tem deles poderia ser outra. O que significa que, de acordo com a teoria de Espinosa, o tratamento aplicado a Alex está duplamente errado. Numa primeira análise porque não é moralmente correcto privar um ser humano da sua liberdade de escolha. A existir, esta mesma liberdade de escolha poderá levar quem pratica actos condenáveis a responder perante entidades competentes de acordo com os actos que praticou. Nunca, no entanto, a privação da liberdade de escolha poderá ser aceitável. A privação da liberdade de escolha torna-nos seres que respondem a estímulos ao invés de seres que pensam e agem de forma diferente de acordo com as diferentes situações e estados psicológicos. Por outro lado se não existe liberdade de escolha não é possível privar um ser humano da mesma. Assim, a cura aplicada ao herói não se trata de uma punição pelos seus actos mas apenas uma punição sem razão de ser pois este não é na verdade responsável por algo que não pode escolher.



§ A música na personalidade de Alex

Um último e pequeno apontamento acerca da obra prende-se com o facto de Alex se mostrar um jovem muito interessado por música, em particular os autores clássicos.
É certo que a música pode suscitar em alto grau determinados sentimentos, mas da mesma forma podem também outros tipos de acontecimentos suscitar esses mesmos sentimentos. Interessa, no entanto, o modo como a música pode suscitar afectos de forma semelhante. Não sendo, no entanto, a música a principal culpada pela conduta de Alex, ela tem um papel importante. O êxtase descrito, sobretudo no livro, por Alex no momento em que põe a rodar no estéreo de casa os discos de compositores clássicos, é em tudo comparável aos actos de violência que pratica. Enquanto ouve música, Alex descreve o que ouve e ao mesmo tempo associa-o a imagens de violência que praticou ou que desejaria praticar.
Deste modo, que pode a música representar dos sentimentos sem expor o seu conteúdo? Apenas o que há de dinâmico neles. Pode reproduzir o movimento de um processo físico segundo os momentos (depressa, devagar, forte, fraco, crescendo, decrescendo). Mas o movimento é apenas uma propriedade e um momento de um sentimento.




Conclusão

§ Culpa de Alex ou culpa do Estado?

É certo que Alex é uma personagem complexa. Tanto conseguimos simpatizar com ele como desejar que seja punido pelos seus actos. No entanto, quando este é traído pelos seus companheiros começamos a sentir uma empatia que com o decorrer da história se torna crescente. A obra consiste em três partes. Uma primeira onde somos confrontados com a ultraviolência e levados a julgar Alex pelos seus actos. Na segunda parte, quando o herói é preso, as regras do jogo alteram-se e agora estamos do lado de Alex. Será que, apesar de toda a sua conduta, este deverá ser submetido ao “tratamento” que, supomos nós, o privará da sua capacidade de escolha para o resto dos seus dias? Numa perspectiva acerca do comportamento de Alex, não significa que este não deva ser punido pelos seus actos. Apesar de, e de acordo com Espinosa, este se encontrar determinado para um certo tipo de actos e o facto de não poder optar entre realizá-los ou não, não faz com que o herói não deva ser punido. No entanto, o que acaba por acontecer é que Alex não é apenas punido pelos seus actos mas privado deles. A sua conduta poderia sofrer alterações, estas também previamente determinadas. No entanto, ao ser condicionado, a sua conduta nunca poderá variar pois sempre que tentar uma acção que contrarie os seus condicionamentos o seu corpo reage e impede-o de seguir o caminho que pretende. Aqui, o herói torna-se a tão referida laranja mecânica, um ser simplesmente mecânico que age de acordo com um comportamento predeterminado.
Mas, como quase sempre na ficção, os finais são felizes, esta Laranja não foge À regra. No final do livro (omitido no cinema), Alex torna-se um ser que opta pelo bem. O condicionamento acabou por ser removido e agora, finalmente, Alex está livre. “I was cured, alright!”

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