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18 maio 2010

Religião e Moral: Que Relação?

A ética é uma ciência do comportamento humano. Trata dos fins para os quais o comportamento humano é orientado e dos meios necessários para atingir um determinado fim. Preocupa-se com os motivos e as causas dos comportamentos humanos.



A religião é uma crença sobrenatural na salvação. Sobrenatural pois situa-se além dos limites do ser humano, pode agir onde este não tem qualquer capacidade de acção. Algumas religiões acreditam que a capacidade de salvação se encontra num ser superior, divino, todo-poderoso e omnipresente. Outras, simplesmente, são ateístas e rejeitam a existência de uma entidade superior.

Muitas vezes, quando falamos em ética ou moralidade, associamos estes termos à religião. Pressupomos que os juízos morais se baseiam no pensamento religioso e como tal não fazemos distinção entre juízos morais e juízos religiosos. Ou seja, juízos morais que se baseiam no pensamento religioso, e simples juízos morais que se baseiam, sobretudo, em factores culturais, são muitas vezes confundidos. No entanto, até que ponto são possíveis juízos morais com fundamento religioso? Poderão ser estes juízos verdadeiros ou apenas aceitáveis para aqueles que acreditam na religião? Em suma, qual é a relação entre a religião e a moralidade? E a existir, podemos afirmar que todos os juízos morais se baseiam na religião ou alguns ainda podem não ter qualquer tipo de relação com esta?

Neste trabalho pretendo expôr o problema da relação entre a ética e as religiões teístas. Para tal serão estudados os fundamentos religiosos para atribuir a moralidade a Deus, assim como a razão pela qual, por vezes, os juízos morais não podem ser atribuídos a Deus. Ao fazê-lo, em algumas situações, estaria a destruir-se o que acreditam os crentes ser a bondade de Deus, o que os leva a renunciar a certas teorias.



Algumas perspectivas religiosas e os seus problemas

Aparentemente, a religião e a moralidade não têm qualquer tipo de relação, no entanto esta afirmação poderá não ser à partida óbvia. Vejamos que nas diferentes culturas existentes se encontram também, por vezes, diferentes tipos de pensamento religioso. Logo, dentro de uma mesma sociedade podemos encontrar indivíduos com convicções religiosas diferentes. Cada religião contém, em si, valores morais próprios, no entanto a sociedade poderá ter outro tipo de valores que se diferenciem dos religiosos.

Deus é concebido como um legislador nas tradições religiosas. Os crentes acreditam que, apesar de não serem obrigados a tal, devem reger-se por estas leis criadas pelo seu Deus. No entanto, se quisermos viver como devemos viver, ou seja, de acordo com a vontade de Deus, optando por aquilo que é bom para nós e para a sociedade, devemos seguir as leis divinas. Esta teoria foi, obviamente, criada por teólogos. Os pontos chave da teoria dizem-nos que moralmente certo significa ordenado por Deus e moralmente errado significa proibido por Deus. Trata-se de uma teoria apetecível pois, como diz James Rachels no seu livro Elementos de Filosofia Moral, «soluciona de imediato o velho problema sobre a objectividade da ética». A moralidade deixa de depender da sociedade ou do indivíduo, passa a ser baseada na vontade de Deus tornando-se fácil dizer se um acto é moralmente bom ou mau: se é ordenado por Deus é bom; se for proibido por Deus é mau.

Esta teoria tem, no entanto, um forte argumento contra: apenas os crentes a aceitam. Os ateus rejeitam esta teoria. Mesmo assim poderiam os crentes afirmar que, apesar dos ateus não acreditarem nela porque não acreditam na existência de Deus, a teoria é verídica pois Deus existe. No entanto, mesmo os crentes encontram problemas no que toca à sua aceitação: uma acção será boa apenas porque Deus ordena ou Deus ordena o que considera bom? Se pensarmos que uma acção é boa porque Deus a ordena estamos a relegar a ética para um nível completamente arbitrário. Passamos a agir de acordo com uma vontade que poderia ser igualmente a oposta. Por exemplo, dizer a verdade passaría a ser bom porque Deus ordena. Se Deus dissesse que mentir era uma boa acção, dizer a verdade passaría a ser uma má acção. Aqui, a doutrina da bondade de Deus deixa de fazer sentido, o que não é aceitável para os crentes. Deus é concebido como um ser todo-poderoso e bom, logo admitir que os seus mandamentos são arbitrários não é concebível para os crentes. Citando de novo Rachels, «”X é bom” significa “X é ordenado por Deus”» o que faz com que dizermos que os mandamentos de Deus são bons não signifique mais que dizermos que «os mandamentos de Deus são ordenados por Deus». Esta frase deixaria portanto de conter qualquer veracidade moral. James Rachels cita ainda Leibniz, no seu Discurso de Metafísica, onde o filósofo diz que “ao afirmar-se que as coisas não são boas por regra alguma de bondade, mas unicamente pela vontade de Deus destrói-se (...) sem se dar conta, todo o amor de Deus e toda a sua glória. Pois porquê louvá-lo pelo que fez, se seria igualmente de louvar se tivesse feito precisamente o contrário?».

Por outro lado, podemos admitir que Deus ordena certo tipo de comportamentos porque são correctos. Como ser todo-poderoso que é, sábio, sabe que uma acção é preferível a outra e ordena-nos que escolhamos a que considera melhor. Desta forma evitamos os problemas postos anteriormente, no entanto surge um outro que retira à religião qualquer tipo de poder sobre a moralidade. Ao admitirmos que Deus escolhe para nós o que é bom estamos a reconhecer um padrão de bem e mal independente da vontade deste, o que torna a moralidade independente da religião.

Aqui surge uma contradição para os crentes: ou se encaram os mandamentos divinos como arbitrários e se abandona a doutrina da bondade de Deus; ou se admitde que existe um padrão moral independente da religião e abandona-se a concepção teológica de bem e mal moral. A primeira opção é completamente inaceitável do ponto de vista religioso. Logo, é necessário aceitar que existe um padrão de bem e mal moral independente da vontade de Deus.

Outra teoria que surge para apoiar o pensamento cristão é a da lei natural. Nesta teoria é dito que o mundo é uma ordem racional com valores e fins inseparáveis da sua própria natureza. A ideia principal desta concepção é a de que tudo no mundo tem uma finalidade. Os pensadores cristão aceitaram esta teoria, no entanto faltava uma coisa: inserir Deus na teoria. Tudo havia sido criado por Deus e tudo acontecia porque essa era a vontade de Deus. De acordo com este ponto de vista, também os valores e as suas finalidades eram inerentes à natureza. No entanto, de acordo com a ciência moderna, o que acontece no mundo acontece acidentalmente, é a consequência de leis de causa e efeito. No que toca à moralidade, a lei natural diz-nos que a moralidade depende da razão, a qual somos capazes de entender porque Deus nos fez seres racionais. Aqui percebemos que o crente e o não crente estão em igualdade. Apesar de um acreditar na existência de Deus e o outro não, ambos são racionais e ambos podem optar, no entanto nenhum tema cesso à verdade moral. A capacidade de agir moralmente de ambos é igual, a única diferença é que o crente acredita que Deus é o autor da moralidade de que participam enquanto que o não crente não percebe isto.

Mais uma vez, se é a racionalidade que nos capacita para escolher o que é bom e o que é meu, mesmo que tudo tenha sido criado por Deus, a moralidade é independente da religião pois somos nós que decidimos, como seres racionais, que caminho devemos seguir.


As interpretações religiosas

Independentemente da moralidade depender, ou não, da religião, continuam a existir ensinamentos religiosos sobre a moral. Muitos destes ensinamentos são interpretações das escrituras, que no entanto não exprimem de forma clara o seu significado. Segundo Rachels, é difícil encontrar qualquer tipo de orientação moral específica nas Escrituras. Muitas delas são ambíguas, e muitas vezes a Igreja proíbe o acesso aos textos sagrados deixando aos crentes apenas a possibilidade de escolha entre algumas interpretações.

No caso do aborto, por exemplo, as Escrituras nada dizem acerca disto, no entanto a Igreja condena o aborto. Algumas passagens da Bíblia são frequentemente citadas para fundamentar e apoiar a posição da Igreja, no entanto estas passagens podem ser interpretadas de forma diferente. Vejamos uma passagem citada por James Rachels separada do seu contexto, e normalmente citada pela Igreja como argumento contra o aborto, e posteriormente a passagem real contextualizada:

«Antes de te formar no seio já te conhecia, e antes de nasceres consagrei-te.»

«Foi-me dirigida a palavra do Senhor nestes termos: “Antes que fosses formado no ventre de tua mãe, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio materno, Eu te consagrei, e te constitui profeta entre as nações.”»

Na passagem nada se pode afirmar acerca do aborto. Percebe-se, pelo contrário, que o que está em discussão nada tema ver com este assunto.

Aqui se demonstra bem que muitas vezes a Bíblia é mal interpretada. São frequentemente citadas passagens que fora de contexto e aplicadas a situações diversas podem ser consideradas como argumentos a favor de uma posição que se pretende defender. Numa situação destas pode dizer-se que se estão a seguir os mandamentos divinos? Não, o mais correcto será dizermos que se procuraram na Bíblia passagens que sustentem a nossa posição, e mesmo assim não estaremos a ser correctos pois essas passagens contextualizadas poderão significar algo muito diferente.



Conclusão

Vimos diferentes perspectivas religiosas onde em todas elas existia uma relação com a moralidade. Seja porque Deus criou o mundo e nos capacitou com a racionalidade para podermos optar sobre as leis morais, ou porque Deus sabe o que é bom e o que é mau e nos ordena que façamos o bom. Contudo estas relações são sempre algo forçadas. Para o provar basta vermos que estas teorias a favor da relação entre a moralidade e religião são sempre rodeadas por fortes contradições. Por exemplo, na teoria dos mandamentos divinos podemos ver que o crente é obrigado a optar pela solução que lhe causa menos conflitos em termos religiosos. No entanto essa decisão nega a relação entre a religião e a moralidade.

Podemos, pois, concluir que não existe relação entre religião e moralidade. Existem mandamentos religiosos acerca da moral, no entanto estes não são necessários para o comportamento moral. Os mandamentos religiosos apenas incitam os crentes a agir de acordo com aquilo que se pensa serem os mandamentos divinos, no entanto não são mais verdadeiros que quaisquer outras opções morais que se possam verificar. A moralidade baseia-se, sobretudo, no meio social em que vivemos e nas leis estabelecidas pelas sociedades. O que é para nós aceitável poderá não o ser noutra sociedade de cultura diferente.

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