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30 abril 2013

O Quinto Império: Destino Espiritual


Terceira Parte – O Encoberto



Os Símbolos
SegundoO Quinto Império



Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz -
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem,
Que as forças cegas se dormem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatros se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vai viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?



 Fernando Pessoa, Mensagem


«O Quinto Império, o Portugal que falta cumprir, é um destino espiritual.»


Fernando Pessoa vivenciou com grande intensidade aquilo que o próprio considerava a decadência portuguesa iniciada com a derrota na batalha de Alcácer Quibir. Considerava  o Portugal do seu tempo, nas palavras de Álvaro de Campos, como um «Portugal-centavos, resto da Monarquia a apodrecer República, extrema-unção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas naturais em África!», um Portugal de gente desnacionalizada, uma imaginação fértil apenas de aparência, sem capacidade de actuar objectivamente, heróis de palavra que deixavam de o ser quando necessários. As bases da sociedade portuguesa precisavam de ser destruídas e reorganizadas para posteriormente se poder criar. Apenas assim era possível superar as fraquezas e reerguer a nação. De outra forma cairíamos sempre nas mesmas fraquezas. Muitas vezes Fernando Pessoa referiu que faltava «cumprir-se Portugal», afirmando que desde o século XVII nada mais fizéramos senão cair na decadência, desnacionalizarmo-nos com a importação do constitucionalismo francês e degenerar com a revolução republicana.
            Para Fernando Pessoa o “ser português” não era apenas nascer em Portugal ou possuir um documento institucional que nos identificasse como portugueses. Não se tratava de uma condição atribuída. Segundo o autor existem várias espécies de Portugal dentro do mesmo Portugal assim como várias formas de se ser português. Há portugueses de nacionalidade que não o são de mentalidade. Como escreveu Pessoa, «A nossa ruína cultural, a nossa não lusitanidade íntima, esse é o mal que nos mina; todos os outros, por graves que sejam, podem passar, podem ter solução. Mas para aquilo que, continuado, é a morte mesma, não há solução».
No entanto, este resurgimento português não tem necessariamente que se dar como outrora aconteceu, como diz no poema “Prece”: «E outra vez conquistemos a Distância – Do mar ou outra, mas que seja nossa!». Com o intuito de ajudar a reorganizar Portugal, e desta forma projectar o país para o seu resurgimento, Pessoa dedicou o seu trabalho, os seus textos e estudos ao que considerava poder ser a forma da salvação lusa. Entre vários textos de intervenção social  e reflexões, o destino de Portugal viria a culminar, e na mesma linha de pensamento de António Vieira, no Quinto Império, ideia esta expressa com grande fervor na Mensagem. E é sobretudo na Mensagem que encontramos de forma vincada este sentimento patriota, a necessidade de reerguer a nação, de torná-la de novo, como antigamente, uma potência, surgindo também a ideia do Quinto Império associada ao sebastianismo. O sebastianismo associa-se ao Quinto Império como um movimento religioso, e como tal o único que podia ter repercussão na cultura do povo. D. Sebastião era visto, de forma claramente simbólica, como o salvador da pátria que regressaria em manhã de nevoeiro para nos salvar da decadência. Da mesma forma, o Quinto Império iniciar-se-ía também numa manhã nebulosa.
 Mas afinal, que tipo de império seria este Quinto Império? Obviamente não se tratava de um império físico, económico ou material, afirmando-se pelo uso da força mas sim um império de significado mais profundo. O Quinto Império tratava-se de uma fusão da ciência, do raciocínio e da especulação intelectual, com a intuição, o misticismo e o ocultismo. Era, portanto, um império baseado numa fusão do material com o espiritual, um império que se seguiria aos quatro grandes impérios anteriores (a saber, o Grego, o Romano, o Cristão e o Inglês), incluindo-os, no entanto não se subjugando a estes. O Quinto Império seria o primeiro império realmente Universal no qual se resumiriam, na sua essência, os quatro impérios anteriores.                


«Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. / Senhor, falta cumprir-se Portugal!»

            Segundo Fernando Pessoa, as interpretações da profecia têm sido das mais variadas. Algumas interpretações defendem que os impérios são materiais, outras que são espirituais e ainda outras interpretações defendem que são impérios em sentido translato e figurado.
            Este conceito é antigo na profecia cristã e hebraica, onde é determinada a existência de cinco impérios até ao que os profetas chamam de “fim do mundo”. No entanto, como referido anteriormente, este “mundo” é o mundo em que vivem, relaciona-se com o fim da sua existência enquanto seres humanos e não propriamente com o perecimento do mundo real.
A profecia do Quinto Império pode interpretar-se, segundo o autor, de três maneiras e diferentes, sendo que todas elas são certas. Torna-se assim difícil interpretar uma profecia, pois uma só interpretação não tem qualquer valor se não for acompanhada das outras duas, sendo que as três se relacionam entre si. A relação pode ser de três ordens: espacial, temporal ou intelectual. Se a profecia se dá sob a ordem espacial, então dá-se no mesmo lugar ou país em três tempos diferentes, sendo os acontecimentos iguais das três vezes. Se esta se dá sob a ordem temporal, então dá-se ao mesmo tempo em três países. Por fim, se o acontecimento se dá sob a ordem intelectual significa que se dá de três maneiras iguais no material, no intelectual e no espiritual. «Império é domínio e pode ser domínio material, domínio intelectual e domínio espiritual» (Fernando Pessoa, Obras de Fernando Pessoa, org. De António Quadros, vol. III, p. 716). Deste modo, pode aplicar-se a fórmula do Quinto Império a qualquer um destes três planos, revelando-se da mesma maneira em qualquer um deles:
            No plano material, que segundo Pessoa foi o único que se supôs, os quatro impérios anteriores são o da Babilónia, o da Pérsia, o Grego e o Romano. O Quinto será o europeu.
            No plano intelectual, «como o reino da Inteligência começa só com a Grécia», os quatro impérios são o Grego, o Romano, o Cristão e o Europeu. O Quinto será o Universal.
            No plano espiritual, tendo começado, para Fernando Pessoa, o domínio espiritual com os egípcios, os três primeiros impérios são o de Osíris, o de Baco e o de Cristo, ficando a faltar dois, que são os restantes até à consumação dos tempos.


«Um Império da Cultura, um Império do Espírito»


O imperialismo de cultura não procura um domínio material. Por outro lado, a intenção deste tipo de imperialismo é influenciar, ou seja, dominar pela absorção psíquica. Trata-se de um imperialismo de expansão espiritual. Procura criar novos valores civilizacionais com o intuito de despertar outras civilizações. Dois exemplos disso são a Grécia, e o Portugal dos descobrimentos. Segundo Fernando Pessoa, «Temos pois, que o primeiro afloramento civilizacional deste país foi um fenómeno de cultura, isto é, de espírito; Portugal surgiu definitivamente na civilização europeia pelas descobertas, e as descobertas são um acto cultural; mais que um acto cultural, são um acto de criação civilizacional.» (Fernando Pessoa, Obras de Fernando Pessoa, org. De António Quadros, vol. III, p. 726).
As razões para um Império da cultura português baseiam-se na riqueza linguística. Diz Fernando Pessoa que uma língua capaz de sustentar um Império da cultura deve ser gramaticalmente completa, rica, e fortemente nacional. Devem existir homens de génio literário que escrevam nessa língua, ilustrando-a, e de génio de perfeição linguística. Essa língua deve espalhar-se também bom um grande número de gente que a fala inicialmente, para assim se proporcionar uma conquista e ocupação perfeitas. A riqueza da língua depende dos elementos culturais diferentes que constem da sua fundação. A língua inglesa, das europeias, é a mais completa pois fazem parte dela o elemento cultural germânico e latino. Seguem-se-lhe a espanhola e a portuguesa, mas diz o autor que principalmente a portuguesa, na qual os elementos culturais são o latim e o árabe.
Em relação às condições de Portugal para ser uma potência espiritual, temos as seguintes: (1) a primeira coisa em que Portugal se destacou na Europa foi através de um fenómeno literário (através da poesia dos Cancioneiros e mais acentuadamente dos romances de cavalaria, que, diz Pessoa, não foi pouco para a época e é suficiente para a pesquisa que fazemos); (2) Portugal surgiu na civilização europeia através das descobertas e as descobertas não são senão um acto cultural, e mais que cultural são um acto de criação civilizacional; (3) salvo alguns países europeus que se possam desconhecer, Portugal foi o único em que a mentalidade superior progrediu e não o contrário. Em todos os outros países os valores superiores sofreram degeneração. Temos então que o primeiro afloramento civilizacional deste país foi um fenómeno de cultura e a ele se seguem várias condições que permitem a Portugal tornar-se uma potência a nível espitirual.
Se Portugal é um Império de cultura torna-se evidente que para a sua organização devem apoiar-se os elementos culturais a que pertence ou com aqueles que se conjuga. Um imperialismo, embora o nosso seja cultural, é sempre um imperialismo e uma política é sempre uma política, como tal é necessário tomar medidas organizacionais que possam encaminhar da melhor maneira a nação. O elemento unificador da nação é a língua, desta forma, uma nação que pretende para si um Império cultural deve começar por unificar-se com todas as nações que falam a mesma língua que a sua. Não pode haver um Império cultural sem uma unificação cultural.
Portugal justifica a sua aspiração a Império da cultura com a felicidade de até agora não ter tido uma grande literatura mas sim uma literatura pequena e escassa. Isto significa que tudo está por fazer o que torna possível fazer tudo como deve ser feito. Por outro lado, que mal fará prepararmo-nos para este Império ainda que não venhamos a tê-lo? Quem ganha com isso é o povo e o país. Trata-se de um enriquecimento cultural que pode ajudar, futuramente, a solucionar problemas de maior escala, aperfeiçoaremos ainda a l´ngua e na pior das hipóteses aprendemos a escrever melhor. «Não queremos derramar uma gota de sangue; e ao mesmo tempo nos não furtamos à ânsia humana de domínio.» (Fernando Pessoa, Obras de Fernando Pessoa, org. De António Quadros, vol. III, p. 729)
Fernando Pessoa defende que este imperialismo é um imperialismo de poetas, de gramáticos. Que este tipo de imperialismo vai mais longe e toca mais fundo que o dos generais. Que seja um imperialismo de poetas, pois então! Um imperialismo de poetas, segundo Pessoa, dura e domina enquanto que um imperialismo de políticos passa e esquece. «(...) se o não lembrar o poeta que os cante. Dizemos Cromwll fez, Milton diz.» (Fernando Pessoa, Obras de Fernando Pessoa, org. De António Quadros, vol. III, p. 729) E mesmo quando estes Impérios terminarem sempre os poetas subsistirão, a obra dos poetas só terminará quando terminar a existência do homem ao cimo da terra, ou, quem sabe, apenas quando a própria terra tiver um fim.


«O prazer é para os cães, o bem-estar material é para os escravos; o homem tem a honra e o domínio.»

            Este é o dever de Portugal e do povo português. A política, economia e mesmo a independência da nação, de nada vale senão apenas porque nos pode conduzir a este fim e permitir-nos alcançá-lo.
            «Quando uma nação atravessa uma crise profunda, e tem uma larga percentagem de analfabetos, há uma esperança: que na educação desses analfabetos esteja, como quase sempre estará, em grande parte a solução da crise.» (Fernando Pessoa, Obras de Fernando Pessoa, org. De António Quadros, vol. III, p. 731) No entanto, se uma nação é culta mas atravessa uma crise profunda toda a esperança de salvação é mínima porque não há nela material novo a que se possa recorrer. «Uma nação culta livra-se com relativa facilidade das crises menores, de que uma nação que o não é com dificuldade se tira, por ter uma menor capacidade de reacção; é das grandes crises que a nação culta dificilmente se tira.» (Fernando Pessoa, Obras de Fernando Pessoa, org. De António Quadros, vol. III, p. 731)
            Para Fernando Pessoa o Quinto Império não seria necessariamente o último, «duraria o tempo que tiver que durar, porque nada há perene e eterno». Quando perecermos, quando o nosso tempo acabar, outros surgirão e o fim do mundo refere-se ao fim do nosso mundo. Em alguns textos o autor refere-se ao Quinto Império como salvação, noutros refere-se a este como uma mentira que inventamos para erguer um povo decadente. Resta-nos perguntar de que modo terá Pessoa acreditado no Quinto Império.


29 abril 2013

Pneuma: Breath of Life

Um momento musical

A banda, iniciada em 2011, registou no início deste ano o seu primeiro trabalho de estúdio, «I Live, Therefore I Resist!».
Este trabalho vinha já a ser preparado ao longo do ano de 2010, culminando neste trabalho de 2013.
O único fim dos três elementos é produzir música. A música de que gostam, como lhes corre nas veias. Diferente, irreverente, sério e dedicado: esta é a definição do trabalho dos Borderline Psycho Killer.