Terceira Parte – O
Encoberto
Os Símbolos
Segundo – O Quinto Império
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz -
Ter por vida a sepultura.
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz -
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem,
Que as forças cegas se dormem
Pela visão que a alma tem!
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem,
Que as forças cegas se dormem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatros se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vai viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
Europa - os quatros se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vai viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
Fernando Pessoa, Mensagem
«O Quinto Império, o Portugal
que falta cumprir, é um destino espiritual.»
Fernando Pessoa vivenciou com grande
intensidade aquilo que o próprio considerava a decadência portuguesa iniciada
com a derrota na batalha de Alcácer Quibir. Considerava o Portugal do seu tempo, nas palavras de
Álvaro de Campos, como um «Portugal-centavos, resto da Monarquia a apodrecer
República, extrema-unção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na
guerra com vergonhas naturais em África!», um Portugal de gente
desnacionalizada, uma imaginação fértil apenas de aparência, sem capacidade de
actuar objectivamente, heróis de palavra que deixavam de o ser quando
necessários. As bases da sociedade portuguesa precisavam de ser destruídas e
reorganizadas para posteriormente se poder criar. Apenas assim era possível superar
as fraquezas e reerguer a nação. De outra forma cairíamos sempre nas mesmas
fraquezas. Muitas vezes Fernando Pessoa referiu que faltava «cumprir-se
Portugal», afirmando que desde o século XVII nada mais fizéramos senão cair na
decadência, desnacionalizarmo-nos com a importação do constitucionalismo
francês e degenerar com a revolução republicana.
Para
Fernando Pessoa o “ser português” não era apenas nascer em Portugal ou possuir
um documento institucional que nos identificasse como portugueses. Não se
tratava de uma condição atribuída. Segundo o autor existem várias espécies de
Portugal dentro do mesmo Portugal assim como várias formas de se ser português.
Há portugueses de nacionalidade que não o são de mentalidade. Como escreveu
Pessoa, «A nossa ruína cultural, a nossa não lusitanidade íntima, esse é o mal
que nos mina; todos os outros, por graves que sejam, podem passar, podem ter
solução. Mas para aquilo que, continuado, é a morte mesma, não há solução».
No entanto, este resurgimento português não tem
necessariamente que se dar como outrora aconteceu, como diz no poema “Prece”:
«E outra vez conquistemos a Distância – Do mar ou outra, mas que seja nossa!».
Com o intuito de ajudar a reorganizar Portugal, e desta forma projectar o país
para o seu resurgimento, Pessoa dedicou o seu trabalho, os seus textos e
estudos ao que considerava poder ser a forma da salvação lusa. Entre vários
textos de intervenção social e
reflexões, o destino de Portugal viria a culminar, e na mesma linha de
pensamento de António Vieira, no Quinto Império, ideia esta expressa com grande
fervor na Mensagem. E é sobretudo na Mensagem que encontramos de forma
vincada este sentimento patriota, a necessidade de reerguer a nação, de
torná-la de novo, como antigamente, uma potência, surgindo também a ideia do
Quinto Império associada ao sebastianismo. O sebastianismo associa-se ao Quinto
Império como um movimento religioso, e como tal o único que podia ter
repercussão na cultura do povo. D. Sebastião era visto, de forma claramente
simbólica, como o salvador da pátria que regressaria em manhã de nevoeiro para
nos salvar da decadência. Da mesma forma, o Quinto Império iniciar-se-ía também
numa manhã nebulosa.
Mas
afinal, que tipo de império seria este Quinto Império? Obviamente não se tratava
de um império físico, económico ou material, afirmando-se pelo uso da força mas
sim um império de significado mais profundo. O Quinto Império tratava-se de uma
fusão da ciência, do raciocínio e da especulação intelectual, com a intuição, o
misticismo e o ocultismo. Era, portanto, um império baseado numa fusão do
material com o espiritual, um império que se seguiria aos quatro grandes
impérios anteriores (a saber, o Grego, o Romano, o Cristão e o Inglês), incluindo-os,
no entanto não se subjugando a estes. O Quinto Império seria o primeiro império
realmente Universal no qual se resumiriam, na sua essência, os quatro impérios
anteriores.
«Cumpriu-se o Mar, e o Império
se desfez. / Senhor, falta cumprir-se Portugal!»
Segundo Fernando Pessoa, as interpretações da
profecia têm sido das mais variadas. Algumas interpretações defendem que os
impérios são materiais, outras que são espirituais e ainda outras
interpretações defendem que são impérios em sentido translato e figurado.
Este
conceito é antigo na profecia cristã e hebraica, onde é determinada a
existência de cinco impérios até ao que os profetas chamam de “fim do mundo”.
No entanto, como referido anteriormente, este “mundo” é o mundo em que vivem,
relaciona-se com o fim da sua existência enquanto seres humanos e não
propriamente com o perecimento do mundo real.
No plano
material, que segundo Pessoa foi o único que se supôs, os quatro impérios
anteriores são o da Babilónia, o da Pérsia, o Grego e o Romano. O Quinto será o
europeu.
No
plano intelectual, «como o reino da Inteligência começa só com a Grécia», os
quatro impérios são o Grego, o Romano, o Cristão e o Europeu. O Quinto será o
Universal.
No
plano espiritual, tendo começado, para Fernando Pessoa, o domínio espiritual
com os egípcios, os três primeiros impérios são o de Osíris, o de Baco e o de
Cristo, ficando a faltar dois, que são os restantes até à consumação dos
tempos.
«Um Império da Cultura, um
Império do Espírito»
O imperialismo de cultura não procura um
domínio material. Por outro lado, a intenção deste tipo de imperialismo é
influenciar, ou seja, dominar pela absorção psíquica. Trata-se de um
imperialismo de expansão espiritual. Procura criar novos valores
civilizacionais com o intuito de despertar outras civilizações. Dois exemplos
disso são a Grécia, e o Portugal dos descobrimentos. Segundo Fernando Pessoa,
«Temos pois, que o primeiro afloramento civilizacional deste país foi um
fenómeno de cultura, isto é, de espírito; Portugal surgiu definitivamente na
civilização europeia pelas descobertas, e as descobertas são um acto cultural;
mais que um acto cultural, são um acto de criação civilizacional.» (Fernando
Pessoa, Obras de Fernando Pessoa,
org. De António Quadros, vol. III, p. 726).
As razões para um Império da cultura português baseiam-se na riqueza linguística. Diz
Fernando Pessoa que uma língua capaz de sustentar um Império da cultura deve
ser gramaticalmente completa, rica, e fortemente nacional. Devem existir homens
de génio literário que escrevam nessa língua, ilustrando-a, e de génio de
perfeição linguística. Essa língua deve espalhar-se também bom um grande número
de gente que a fala inicialmente, para assim se proporcionar uma conquista e
ocupação perfeitas. A riqueza da língua depende dos elementos culturais
diferentes que constem da sua fundação. A língua inglesa, das europeias, é a
mais completa pois fazem parte dela o elemento cultural germânico e latino.
Seguem-se-lhe a espanhola e a portuguesa, mas diz o autor que principalmente a
portuguesa, na qual os elementos culturais são o latim e o árabe.
Em relação às condições de Portugal para ser
uma potência espiritual, temos as seguintes: (1) a primeira coisa em que
Portugal se destacou na Europa foi através de um fenómeno literário (através da
poesia dos Cancioneiros e mais acentuadamente dos romances de cavalaria, que,
diz Pessoa, não foi pouco para a época e é suficiente para a pesquisa que
fazemos); (2) Portugal surgiu na civilização europeia através das descobertas e
as descobertas não são senão um acto cultural, e mais que cultural são um acto
de criação civilizacional; (3) salvo alguns países europeus que se possam
desconhecer, Portugal foi o único em que a mentalidade superior progrediu e não
o contrário. Em todos os outros países os valores superiores sofreram
degeneração. Temos então que o primeiro afloramento civilizacional deste país
foi um fenómeno de cultura e a ele se seguem várias condições que permitem a
Portugal tornar-se uma potência a nível espitirual.
Se Portugal é um Império de cultura torna-se
evidente que para a sua organização devem apoiar-se os elementos culturais a
que pertence ou com aqueles que se conjuga. Um imperialismo, embora o nosso
seja cultural, é sempre um imperialismo e uma política é sempre uma política,
como tal é necessário tomar medidas organizacionais que possam encaminhar da
melhor maneira a nação. O elemento unificador da nação é a língua, desta forma,
uma nação que pretende para si um Império cultural deve começar por unificar-se
com todas as nações que falam a mesma língua que a sua. Não pode haver um
Império cultural sem uma unificação cultural.
Portugal justifica a sua aspiração a Império
da cultura com a felicidade de até agora não ter tido uma grande literatura mas
sim uma literatura pequena e escassa. Isto significa que tudo está por fazer o
que torna possível fazer tudo como deve ser feito. Por outro lado, que mal fará
prepararmo-nos para este Império ainda que não venhamos a tê-lo? Quem ganha com
isso é o povo e o país. Trata-se de um enriquecimento cultural que pode ajudar,
futuramente, a solucionar problemas de maior escala, aperfeiçoaremos ainda a
l´ngua e na pior das hipóteses aprendemos a escrever melhor. «Não queremos
derramar uma gota de sangue; e ao mesmo tempo nos não furtamos à ânsia humana
de domínio.» (Fernando Pessoa, Obras de
Fernando Pessoa, org. De António Quadros, vol. III, p. 729)
Fernando Pessoa defende que este imperialismo
é um imperialismo de poetas, de gramáticos. Que este tipo de imperialismo vai
mais longe e toca mais fundo que o dos generais. Que seja um imperialismo de
poetas, pois então! Um imperialismo de poetas, segundo Pessoa, dura e domina
enquanto que um imperialismo de políticos passa e esquece. «(...) se o não
lembrar o poeta que os cante. Dizemos Cromwll fez, Milton diz.» (Fernando
Pessoa, Obras de Fernando Pessoa,
org. De António Quadros, vol. III, p. 729) E mesmo quando estes Impérios
terminarem sempre os poetas subsistirão, a obra dos poetas só terminará quando
terminar a existência do homem ao cimo da terra, ou, quem sabe, apenas quando a
própria terra tiver um fim.
«O prazer é para os cães, o
bem-estar material é para os escravos; o homem tem a honra e o domínio.»
Este é o dever de Portugal e do povo
português. A política, economia e mesmo a independência da nação, de nada vale
senão apenas porque nos pode conduzir a este fim e permitir-nos alcançá-lo.
«Quando uma nação atravessa uma crise
profunda, e tem uma larga percentagem de analfabetos, há uma esperança: que na
educação desses analfabetos esteja, como quase sempre estará, em grande parte a
solução da crise.» (Fernando Pessoa, Obras
de Fernando Pessoa, org. De António Quadros, vol. III, p. 731) No entanto,
se uma nação é culta mas atravessa uma crise profunda toda a esperança de
salvação é mínima porque não há nela material novo a que se possa recorrer.
«Uma nação culta livra-se com relativa facilidade das crises menores, de que
uma nação que o não é com dificuldade se tira, por ter uma menor capacidade de
reacção; é das grandes crises que a nação culta dificilmente se tira.» (Fernando
Pessoa, Obras de Fernando Pessoa,
org. De António Quadros, vol. III, p. 731)
Para Fernando Pessoa o Quinto Império não
seria necessariamente o último, «duraria o tempo que tiver que durar, porque nada
há perene e eterno». Quando perecermos, quando o nosso tempo acabar, outros
surgirão e o fim do mundo refere-se ao fim do nosso mundo. Em alguns textos o
autor refere-se ao Quinto Império como salvação, noutros refere-se a este como
uma mentira que inventamos para erguer um povo decadente. Resta-nos perguntar
de que modo terá Pessoa acreditado no Quinto Império.
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