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08 fevereiro 2005

Quase 6 anos depois: esquecido ou relembrado?




João Garcia, alpinista portugês de 37 (ou 38) anos, tem no seu currículo já 5 "oito mil", para além de muitas outras montanhas espalhadas pelos vários continentes.
"Oito mil" é o nome que se dá às 14 montanhas com mais de 8000 metros de altitude, as únicas existentes à face da Terra. Situam-se na cordilheira dos Himalaias e do Karakorum. O Monte Evereste é o "líder" de altitude obtendo uma marca de 8850 metros medidos em desnível.
Sendo a montanha mais alta, e a que mais se eleva acima dos 8000 metros (acima dos 8000 metros encontra-se a zona da morte, assim denominada pois acima desta altitude é praticamente impossível a existência de vida sem recorrer a garrafas de oxigénio), é também das mais difíceis de alcançar o cume.
João Garcia alcançou, após outras tentativas falhadas, em 18 de Maio de 1999, o cume de um dos picos mais importantes do alpinismo mundial: Evereste.
Juntamente com o amigo e companheiro de expedição, Pascal Debrouwer (que morreria na descida do cume), organizou toda a expedição que os levaria ao mais prestigiado cume do alpinismo.
Após a sua ascenção foram muitas as entrevistas, muito se escreveu sobre tal feito/tragédia.
Ao fim de seis anos, certamente, muito poucos se lembram. Na altura, possivelmente, o mesmo passou ao lado de outros tantos.
Seguidamente deixo dois artigos interessantes, retirados do jornal "Público":

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DE PÉ NO TECTO DO MUNDO
Luís Francisco PÚBLICO
Quinta-feira, 20 de Maio de 1999

Há montanhas tecnicamente mais exigentes, outras mais bonitas e tantas mais acessíveis. Mas nenhuma mais alta. São muito poucas as pessoas que conseguiram a proeza de estar de pé no tecto do mundo. Desde terça-feira, uma delas é o português João Garcia.
Imagine-se uma gigantesca pirâmide triangular de rocha e gelo, com três arestas e outras tantas faces escarpadas. Na sua base, gigantescos glaciares cavalgam os vales com toneladas de gelo em constante convulsão. Lá no alto, a 8848m, sopram os ventos de altitude que costumam amparar os aviões a jacto nas rotas comerciais. Eis o monte Evereste, ponto culminante da cadeia dos Himalaias e do planeta, um íman para todos os montanhistas.

Na terça-feira, João Garcia, de 31 anos, tornou-se o primeiro português a alcançar o cume da montanha suprema. Fê-lo sem recorrer a garrafas de oxigénio, o que torna a tarefa ainda mais ciclópica: naquelas altitudes, o ar rarefeito só oferece um terço do oxigénio disponível ao nível do mar, pelo que qualquer esforço se torna esgotante. Só mesmo uma excelente condição atlética e uma vontade férrea, aliadas a uma aclimatação bem programada, permitem entrar e sair da chamada “zona da morte” sem danos físicos irreversíveis.

As últimas notícias oriundas da montanha davam conta que Garcia e o seu parceiro de escalada, o belga Pascal Debrouwer, estavam a descer em boas condições. Uma fase sempre difícil, porque o cansaço pesa e é preciso resistir à sensação do dever cumprido, em altitudes onde o cérebro humano funciona apenas a um terço da sua capacidade normal.

A rota de Mallory

Para evitar os riscos da altitude e das condições meteorológicas (os da própria escalada são inevitáveis), as expedições aos Himalaias e à cordilheira subsidiária do Caracórum — onde se situam todos os 14 picos com mais de 8000m do mundo — adoptaram procedimentos muito ritualizados. No fundo, utilizaram um estilo próprio, chamado himalaiano, por contraste com o mais leve e rápido estilo alpino.

A ideia é montar sucessivamente uma série de acampamentos nas encostas da montanha, descendo sempre para um acampamento-base, situado a uma altitude “confortável” — no caso do Evereste, 5200m. Mas o assalto ao cume tem de ser feito ao ritmo alpino, ou seja, com a menor carga possível e em tempo limitado. Depois de montar a infra-estrutura de suporte, os alpinistas descansam um pouco e depois lançam-se “a correr” montanha acima e montanha abaixo.

No Evereste foram já traçadas várias rotas de escalada. A mais usada é a que permitiu a primeira ascensão bem sucedida: a de Hillary e Tensing em 1953. É a mais curta, já que “sai” do desfiladeiro sul, a 7896m, entre o Evereste e o seu irmão gémeo, o Lhotse (8501m), e progride pela crista sudeste sem grandes dificuldades técnicas até ao cume. A crista oeste, mais longa e difícil, e as faces norte (3000m de desnível), sul (2000m de desnível e extremamente técnica) e leste (quase inexplorada, apenas com uma dificílima via aberta em 1983) são outras tantas opções de escalada.

A expedição de João Garcia — tal como as de dois anos anteriores, em que o português não conseguiu atingir o seu objectivo — escolheu uma outra rota, a que passa pelo desfiladeiro norte e segue a linha que encontra a crista nordeste a 8400m. Daí para o cume, há ainda que vencer duas grandes dificuldades de escalada, os primeiro e segundo degraus, como são conhecidos.

Foi também por este caminho que o malogrado George Mallory e o seu companheiro Andrew Irvine se lançaram em 1924. Ninguém sabe se conseguiram chegar ao cume e nunca mais se soube deles. Este ano, o corpo congelado de Mallory foi descoberto a 8290m de altitude, ainda vestido com as roupas que hoje ninguém usaria para ir à praia num dia de Inverno. Dele ficou o mito e uma grande frase. Quando lhe perguntaram porque queria escalar o Evereste, respondeu apenas: “Porque está ali.”


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SUBIDA AO EVERESTE: " UMA COISA TÃO INUMANA "
Teresa Firmino PÚBLICO
Sabado, 29 de Maio de 1999

Subiu ao cume do mundo e foi quase como se tivesse entrado noutra realidade — numa dimensão em que o oxigénio, de tão rarefeito, mal chega ao cérebro. João Garcia, o primeiro alpinista português no topo do Evereste, fala como se tivesse estado fora da Terra. Conta como tudo se tornou tão confuso e lento que não pôde tirar prazer desse momento alucinante. E como, por pouco, não tirava sequer uma fotografia.
Aos 31 anos, João Garcia garantiu um lugar de destaque na história nacional: pela primeira vez, a 18 de Maio de 1999, um português atingiu o ponto mais alto da Terra, o mítico Evereste, a 8848 metros de altitude. Sem o auxílio de oxigénio. Foi a terceira vez que o tentou, mas desta vez chegou lá ao alto ao fim da tarde. Ficou ali quase três horas. No regresso, quase morria. O gelo queimou-lhe as mãos, os pés e o nariz. Agora está muito cansado e mais magro. O companheiro de escalada, o belga Pascal Debrouwer, de quem era sócio na empresa de “trekking” Montagnes du Monde, nunca mais regressará.

Já em Katmandu, a capital do Nepal, João Garcia, numa conversa por telefone com o PÚBLICO, falou ontem das sensações de uma viagem aos limites da Terra e da tristeza que o invadiu pela perda de um amigo. Hoje, regressa à Europa para tratar, num hospital espanhol especializado, as queimaduras provocadas pelo gelo.

PÚBLICO — Como se sente fisicamente? Como estão os seus dedos e nariz?

JOÃO GARCIA — Também gostava de saber como estão. Amanhã [hoje], regresso à Europa e vou para um hospital universitário, especializadíssimo em “geluras”. Tenho lesões graves. Não quero ser pessimista, mas receio que me possam ser amputadas as pontas de alguns dedos. No nariz não é grave, nos pés também não. Basicamente, foi na mão. Mas cá dentro, a coisa não está boa. Agora não consigo apreciar... O preço foi tão alto, tão alto... A morte do Pascal [Debrouwer]...

O que se diz é que Pascal Debrouwer caiu da encosta e que andam à procura do corpo. Confirma isto?

Numa montanha como o Evereste, pode-se procurar um corpo, mas nunca se consegue trazê-lo. O corpo acaba de tal maneira mutilado, congelado, que fica literalmente colado. As temperaturas são tão baixas que, se puxarmos por um braço, podemos ficar com ele na mão. Acho pouco provável que encontrem o corpo dele.

O que aconteceu na descida?

Atrasámo-nos na descida. Tivemos de passar uma noite de bivaque [acampamento provisório] — ou seja, não conseguimos chegar ao acampamento mais alto, o campo 3. Um de nós foi mais para a frente, o outro ficou para trás. E a falta de oxigénio no cérebro não perdoa. Já não funcionamos a 100 por cento. Ao vir para baixo, já vínhamos muito confusos, chamemos-lhe assim. Ele enveredou por um caminho diferente e, pelo que dizem, caiu directamente da Face Norte.

Portanto, a certa altura, desceram separados?

Vínhamos juntos e a dada altura ele já não me acompanhava. Havia momentos em que eu parava e ele apanhava-me. Mas houve uma altura em que deixou de me acompanhar e obrigou-me a “bivacar”. No dia seguinte, não sabia dele. Não sabia se estava para cima, se estava para baixo. E, como a gente diz, fiz-me à vida, porque já é uma questão de sobrevivência. Quando cheguei ao campo 3 é que soube, via rádio, pelos colegas acampados, que estavam a tentar enviar gente fresca, a pagar a “sherpas” para irem lá acima buscá-lo, levar-lhe oxigénio... qualquer coisa, para trazê-lo para baixo. O resgate foi para a frente. Mas, por azar, ele enganou-se no caminho e veio por um trilho extremamente perigoso. E aos olhos de dois “sherpas”, resvalou e caiu. Eram “sherpas” de uma expedição italiana, que foram para lá aliciados por dinheiro da nossa expedição. Ainda tentei fazer qualquer coisa, mas já não tinha forças.

Apesar de ainda não conseguir dar valor à escalada do Evereste, o que sentiu quando chegou ao ponto mais alto da Terra sem oxigénio?

Francamente, não sei. Andarmos sem oxigénio a 8800 metros é uma coisa alucinada, tão inumana. Raciocinamos a 50 por cento. E ali há tantas preocupações: de querer voltar para baixo, de tempo, de tirar uma fotografia. E há muito cansaço. Temos um rendimento de oito a dez respirações e um passo, oito a dez respirações e outro passo. É tudo tão lento que não apreciamos.

Não vale o esforço, é isso?

Isto é aquilo que faço... Claro que vale o esforço, porque quando voltamos cá abaixo — nós, os que voltamos —, aí raciocinamos a 100 por cento e podemos apreciá-lo. Mas quando estamos lá em cima, não... porque estamos num meio que não foi feito para nós. É uma coisa completamente alucinante, ao ponto de, àquela altitude — e qualquer médico explica isso —, perdermos neurónios por falta de oxigenação. Ainda não estou bem para poder explicar isto.

Quanto tempo é que ficaram lá em cima?

Ainda demorou umas três horas. Antigamente, existia lá um tripé. As fotos famosas têm sempre aquele tripé, levado para medir o Evereste, com uma série de reflectores laser. Porque cá em baixo na Terra... [hesita e ri-se] pois, na Terra... nos campos base no lado chinês e no lado nepalês, uns aparelhos reflectiam lasers. E esse tripé desapareceu. De maneira que há ali uma série de relevos que parecem outros cumes, e foi preciso quase subir a todos para ver qual deles é o mais alto. Claro que há uma forma mais fácil de detectar isso: é ver qual é o cume mais sujo, com mais detritos abandonados, com mais garrafas de oxigénio vazias. Esse foi o que me pareceu óbvio. Mas demorámos cerca de três horas lá em cima. Estávamos muito cansados. Sentámo-nos e ficámos ali pasmados a respirar. Ofegantes, ofegantes, ofegantes... E este é um dos grandes perigos... ficarmos ali naquela pasmaceira, inertes, sem reacção. Assim uma pessoa pode morrer. Escalar uma montanha com mais de 8000 metros sem oxigénio, como o Evereste, tem estes perigos. É preciso uma grande força de vontade para querer voltar à Terra, para voltar à vida. Não é por acaso que, dos 800 e tal que escalaram o Evereste, só 60 é que escalaram sem oxigénio. E destes 60, metade morreram.

Mas finalmente, ao fim de três horas, encontraram o cume mais sujo...

Sim, com uma série de garrafas de oxigénio vazias. Tirámos a fotografia do cume e viemos para baixo. Já viemos atrasados, e fomos apanhados pela noite.

E lá de cima, olhou para a Terra?

É quase essa a sensação... porque a nossa visão fica adulterada. Olhamos é para o horizonte. Lá em cima, gostaria de ter reconhecido os glaciares que levam à base da montanha, mas não consegui lembrar-me de todas as coisas que gostaria de ter feito. Aliás, por pouco não tirávamos a fotografia.

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Mais tarde, e com a cooperação da amiga e jornalista Berta Rodrigues, João G. escreveu "A mais alta solidão", onde relata toda a sua história.
No prefácio, de Miguel Sousa Tavares, encontramos uma frase curiosa: "Na próxima Primavera, quando o João Garcia estiver outra vez agarrado às paredes e à neve de outro "oito mil", o Annapurna ou o K2, quando lá do alto contemplar um planeta inteiro a seus pés e adivinhar a multidão de seres humanos que o habitam, deixará lá em cima mais um bocado de si mesmo, antes de voltar para baixo, onde os deuses já não se tocam de perto e nenhuma solidão, entre todas as solidões do mundo, procura a sua razão tão alto."

Para quem acredita vale sempre a pena.

1 comentário:

Anónimo disse...

Tão bonito =) O que eu gostava de ter coragem pra fazer uma coisa destas... Mas pronto, admito, tenho um medo do caraças de alturas! l0ol e vivo num predio de 12 andares! Mas deve ser tao lindo =)
beijitos* e parabens pelo grande post! :P
Raquel*