
A Matter of Life and Death.
Já antes tinha falado aqui deste albúm, na altura com saída agendada para 28 de Agosto do presente ano.
Desta vez o albúm está já cá fora. E que albúm...
Comecemos pelo início da história.
Iron Maiden, banda originária de Londres, fundada no início dos anos oitenta por Steve Harris, baixista da banda. Na altura, os Maiden, integravam um movimento apelidado de New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM) que incluía muitas bandas da onda metálica das quais se esperava um renascimento do espírito Metal, com benéficas inovações.
Pois bem, os Maiden foram, sem dúvida, A Banda. Tornaram-se então senhores e reis do Heavy Metal. São reconhecidos por todo o mundo, conhecendo ou não a sua música o nome não escapa a muitos ouvidos. São uma banda com uma imagem sólida, respeitada, de grande qualidade e paixão pelo seu trabalho. Quem disto dúvidas tiver ou não vive neste mundo ou não o quer viver.
Há volta de 25 anos se passaram desde que 'Arry teve a feliz e luminosa ideia de juntar mais quatro tipos com a mesma paixão (presentemente são seis). 25 anos de albúns, de tournées, de sucesso, de insucesso, de muita paixão, dedicação e um nunca baixar os braços. 25 anos de respeito pela maior banda de Heavy Metal à face da Terra. (Apesar de alguns se auto-apelidarem 'kings of metal'.)
Mudanças de formação (quase que obrigatórias na história de qualquer banda), novas ideias, algumas mudanças em relação ao sentido musical sem no entanto se afastarem muito da linha condutora ao fim de todos estes anos: O metal.
É verdade que desde 2000, quando se reuniram Janick Gers, Steve Harris, Nicko McBrain, Dave Murray, Bruce Dickinson e Adrian Smith, (Adrian e Bruce tinham abandonado a banda durante alguns anos para enveredarem por carreiras a solo) que os Maiden ganharam nova força, enveredando também por uma carreira mais na onda do Hard-Rock, chegando mesmo a tocar o rock progressivo com 'A matter of life and death', sem no entanto abandonarem as linhas musicais que definiram desde o inicío a banda, as linhas musicais que nos permitem ouvir um album e independentemente do ano ou da sua sonoridade mais característica dizer com certeza e um sorriso no rosto: "Isto é Maiden!".
'A matter of life and death' não será um albúm na onda de 'Somewhere in time' ou 'Iron Maiden', que são albúns mais directos tanto em termos líricos como musicais, mas um albúm complexo, coeso, um grande albúm de Maiden que em certas alturas nos faz pensar que estamos a reviver a Piece of Mind-era, Powerslave-era, Somewhere in time-era... Enfim, faz-nos sentir que os Maiden estão bem vivos, que a sua sonoridade pode mudar, pode esconder-se mas que não pode fugir!
(These colours don´t run!)
Em 'Uma questão de vida e morte' encontramos dez temas.
Começamos num mundo diferente, entramos num campo de guerra, contínuamos a combater ao lado de Bruce e companhia, conhecemos um peregrino que insiste em fazer com que a água passe a vinho, voltamos de novo a guerra desembarcando na Normandia, assistimos ao nascimento de um novo ser, reencarnamos com um tipo amaldiçoado, falamos com Deus, conhecemos o senhor da luz e terminamos num legado.
Será difícil emitir uma opinião concreta sobre um albúm que nem uma semana tem de vida. Cada um, ao longo dos tempos o interpretará da sua forma. No entanto, nesta era musical em que vivemos, não há duvida de que os Iron Maiden apostaram forte e não se renderam (aliás como nunca o fizeram e não irão certamente fazer) às tendências musicais recentes. Maiden é Maiden, eles fazem o que querem.

À LUPA
DIFFERENT WORLD: Uma abertura bem ao estilo Maiden. Uma entrada poderosa, 'a abrir', um riff orientador ao longo de toda a música, variações melódicas, refrão que entra no ouvido, de cantarolar por dias a fio, letra ao bom estilo Adrian Smith, profunda o suficiente para nos fazer pensar mas não para derreter os miolos. Um solo fantástico que, em minha opinião, é dos melhores do albúm: melódico, simples. Ao bom estilo de Invaders ou Aces High. Um misto de Wicker Man e Wildest Dreams com um final bem mais estrondoso.
THESE COLOURS DON'T RUN: Um verdadeiro hino, uma homenagem aos soldados que defendem o nosso mundo. Um começo bem calmo que nos ambienta ao campo de batalha. Depois dá-se a passagem para o riff principal, forte, galopado mas não ao velho estilo, um galope moderado (uma das referências escondidas), um ritmo obscuro que nos posiciona numa trincheira. Avançamos aos poucos, combatemos o inimigo, somos atingidos por solos agressivos, um Bruce Dickinson que contínua a mostrar que velho é o Mick Jagger e quem não tem voz é o Robbie Williams. Por fim a vitória. Um repetido 'oh oh oh' que nos faz imaginar uma marcha, um trote. Honrando a pátria, estas cores não fogem!
BRIGHTER THAN A THOUSAND SUNS: Encontramos nesta terceira faixa um dos pontos chave do albúm. Uma entrada melódica e calma, tal qual explicação do que se vai passar nos próximos minutos. Depois uma passagem para um riff pesado, talvez do mais pesado que encontramos em Maiden (a par do riff da "The reicarnation of Benjamin Breeg). Um ritmo lento mas poderoso. As várias mudanças ao longo de toda a música fazem-nos sentir que esta é mesmo "mais brilhante que mil sóis" de uma forma obscura.
THE PILGRIM: Mr. Janick Gers já nos tem mostrado o grande talento que é tanto dentro como fora de palco. Como compositor tem-se revelado enorme também. É talvez o elemento que maior diversidade trouxe ao som da banda. Em THE PILGRIM encontramos uma surpresa. Um ritmo 'punchy', uma estrutura mid-tempo. Uma sonoridade a puxar o hard-rock. ALgumas secções rítmicas que nos transportam para a Powerslave-era.
THE LONGEST DAY: Outro dos pontos altos do albúm. o Dia D, o desembarque na Normandia. Tudo isto envolto num grande ambiente musical. Ambiente também ele obscuro (como será talvez a maioria do albúm...) que acompanha na perfeição a 'poesia' de Bruce Dickinson. Uma música directa mas que pode sempre ser espremida e deitará muito sumo, certamente. O coro liberta-nos, os versos ao longo da música criam-nos um aperto, cortam-nos a respiração. Como é possível sentirmo-nos num campo de batalha, na pele de soldados, apenas com uma música? Basta ouvir para comprovar...
OUT OF THE SHADOWS: Outra grande surpresa. Esta não nos remete para a guerra mas sim para a felicidade que é o nascimento de um novo ser, espelhando também o mau momento que se vive em toda a parte. Ao bom estilo de Maiden de 'uma no cravo outra na ferradura'. No entanto a música em sí é a surpresa. Uma balada no verdadeiro sentido da palavra. Pode relembrar-nos 'Children of the damnes' ou mesmo 'Remember Tomorrow', no entanto é apenas similar. É uma balada durante todo o tempo que a compõe. Mudanças de ritmo, guitarras acústicas, outro belíssimo solo (muito diferente do que estamos habituados a receber da banda), ritmo calmo durante 5.63 minutos.
THE REINCARNATION OF BENJAMIN BREEG: O single. Uma sonoridade também extremamente pesada que nos leva a pensar se os 'Three amigos' não andaram a brincar com as afinações dos seus instrumentos... Adiante. Uma maldição assombra o nosso amigo Benjamin (que, ao que parece, nos vai ser difícil descobrir quem é, havendo já rumores). A linha musical mantém-se obscura. Regressamos às sonoridades egípcias na que é, para mim, a melhor prestação de Dave Murray no albúm. Destaque para a calmíssima introdução, mais uma vez, e para o 'killer-riff' de abertura.
FOR THE GREATER GOOD OF GOD: Ora bem, mais um épico de Steve Harris. Um 'Arry que já não é o mesmo de 'Rime of the Ancient Mariner' ou 'Hallowed be thy name' mas que, apesar de num estílo mais progressivo, contínua a mostrar porque é que os Maiden apareceram, viveram e vivem. Uma grande música com um conteúdo lírico enorme. Em termos músicais temos uma entrada de baixo sinistra, um ritmo, seguidamente, que nos lembra uma sonoridade bíblica, de igreja. Um Dickinson que canta a 'bandeiras despregadas'. Uma música que muitos fanáticos religiosos deveriam ouvir.
LORD OF LIGHT: Sem dúvida a mais agressiva de 'A matter of life and death'. Outro 'killer-riff' numa música que é marcada pelo rápido rapidinho, com algumas quebras rítmicas e melódicas que nos possibilitam um descanço. Esta é a música mais Maidenizada de todo o albúm, numa versão hard-rock da banda. Uma amiga do headbanging.
THE LEGACY: Entramos no legado medieval, outra surpresa. Sonoridades medievais que lembram Blackmore's Night, ritmos rasgados, galopes, tudo isto nos envolve numa teia de mentira. É outra obra de arte de Janick Gers. Temos variações enormes de ritmo. Há uns anos nunca seria de esperar um 'track' destes num albúm de Maiden. No entanto o lugar é totalmente merecido. O solo de Janick Gers é fabuloso.

Concluíndo:
- Bruce Dickinson canta a bandeiras despregadas. O homem já não é um jovem adolescente mas também não é um velho. Grande letrista. O frontman que qualquer banda desejaria.
- Nicko McBrain tem, talvez, uma das prestações mais sólidas e de maior qualidade desde que se juntou há banda. O ritmo de bateria é ao longo de todo o albúm muito compacto.
- Steve Harris, o patrãozinho. Finalmente, depois de 18 anos o baixo regressa em força a um albúm da banda. E que regresso. O grande compositor que é também volta a reaparecer.
- The tree amigos estão melhor que nunca. Desta vez ouvimos claramente três guitarras. Ouvimos ritmos a que anda estávamos habituados, ouvimos velhas marcas sonoras já nossas conhecidas.
Os Maiden estão aí e estão em força! Quanto mais velhos melhores estão, à vinho do Porto. A produçãoa cargo de Kevin Shirley também é merecedora de destaque. A sonoridade da banda está muito compacta em albúm. Captar isso em estúdio não é fácil.
É um albúm que todos os fãs e não apreciadores da banda deveriam ouvir. Iron Maiden na sua versão século XXI. 'This is what I call fuckin music!'
